Monday, July 19, 2010

Qual nas noites desce o êxtase
Teu perfil intacto se expande
Esvai-se o perfume das rosas
Tua aba ao meio mastro

Vulto gracioso, te elevas
Na noite já cinza ardente
E o amor bate à tua porta.

Eis, assim de costas
Talvez Norte…
Mas quero ver o Sul das tuas veste,
Nuas

Meu peito em sonhos desespera…
Ou, o ideal que a minh`alma anseia.

Thursday, August 10, 2006

Acto milenar


A lua vogava em pleno céu: as crepitações do calor da perda, algures numa estrela premeditada tecem a harmonia vaga de tudo o que fiz e pensei, abrem-se ao que os ressoa…um musical fúnebre. Olhei de perto e vi os olhos, a face desse alguém que era eu, que me habitáva; o alarme dessa viva realidade que era eu e o não era; desse ser vivo que até então vivera comigo em absoluta indiferença.

Uma voz retardatária numa manhã clandestina, ecoa no quarto onde antes adormeceras… pela última vez; - a inquietante separação de vivos e mortos.

Sobre a lua, essa, com portas entreabertas, vinha um eco sonambulesco da luz difusa. E eu, sentei-me junto a esta porta entreaberta, na sala em em forma ou espécie de pátio semiaberto. Um denso nevoeiro vagueava perfumando: um ar a velório, vazia de silêncio mas cheia de vultos de quantos ali viveram. Uma memória de origem, adormecida há muito que despertara em mim o sinal obscuro da tua ida milenar. Tento redescobrir a face preambular, na suposição de achar um retrato imaginário e invulgar, o indício de um rumor de vida pela sua descrição, pela voz gravada em mim das nossas conversas: a verdade perfeita no cenário real das nossas tranquilas e reveladas atitudes como se ambos fossemos um só espírito, um só e único ser. Mas pensar tudo isso é a completa banalidade de uma realidade que já não é senão uma figura presente e distante, silenciosa e inacessível, constrangedora na dor, intranquilamente intransigente, do ser que já não é senão como uma estátua, a de um corpo em repouso absoluto. Corroeu-me a… talvez a busca de uma outra lembrança de nós, juntos, à outras esferas da nossa intimidade e, eis que trespassa agora pela fresta da janela do meu visionário tempo lunar o fluido sensorial de uma presença invisível mas conhecida dentro de mim. Afinal, não partiras já para a última morada, ainda aqui estás. Estás então para dizer ao íntimo que irás permanecer viva dentro de mim… que será apenas uma mudança local, cuja morada eu sempre conhecera. Pode parecer absurdo tudo isto, mas sinto nas vísceras a sua presença fulgurante e inverosímil. Complexa…estrada a mundice da morte: a prodigiosa transição; - corpo e alma; o incontornável retorno à vida: - um súbito silêncio milenar que culmina com o deitar a terra para dentro da cova, como último sinal do adeus sem retorno, que se encerra cobrindo o universal espaço da largura de cinco passos, com flores mutiladas e ajustadas, adornadas, formando um só ramo, como tu aí…mas contrastante pelo multicolor ajustado e ajeitado dos ramos, como sinal perpetuáveis e necessariamente único…será também esta sepultura para mim um lugar de romarias. Não quiseste o vestido preto, escolheste o vermelho, porém, o preto também é alegria, mas tu lá soubeste das tuas razões…e, assim permanecerás na memória dos vivos. Dos vivos sim, porque amortalhado, apenas eu, infinitamente e contrariamente só…embora aparentemente vivo e em consciência saber que também tenho de morrer, ou melhor, parte de mim morreu contigo. Não a pior ou menos boa, mas a melhor, a das nossas comunhões, a que me mantinha vivo e consolável e afortunado. Como é difícil miracular tal sentido daquele que não ama, nem nunca o amor pleno haverá vivido?

Esta noite será perpassável mais uma vez porque será a que menos desejaria nunca ter de suportar.

Quantas coisas aprendi contigo, sei. Estão aí como sinal de que estou vivo, mas não as que mais preciso agora. Quando delas precisei sabia-as, contigo, Agora, justo agora que me habito, de nada me servem porque..., deixaram de fazer sentido. Sentido, só enquanto exististe e tudo foi divino, embora tristemente milenar. Agora, são os ecos alarmantes que soqueam abrutalhadamente como estrondos de vulcões cá dentro nas minhas veias, no meu cérebro atabalhoado, cheio de estridências...a compulsividade provinda como se de uma mísera raiva alarmante e repercutiva tomasse de um só pulso as minhas entranhas e, o furor de uma plenitude abusiva e arrogante quizesse fazer do que me habita ainda dos teus restos que ainda retenho saudosamente, de seu direito.
A lua voga, o mar, esse cristaliza-se em torno e eu ainda sonho. Sonho com emoção do forte sentir aniquilador, esse ritual milenar, a morte...

Thursday, July 27, 2006

Sede Espiritual


No retiro sombrio, um serafim na encruzilhada…o que restou de mim;
minhas pupilas… qual sonho bom!
As mãos plenas de rumor dos céus…movimentos de anjos…

O alear…neste infinito:
meu rastejar, neste cosmo que é vida… ah, a vida!...
São meus lábios envoltos na brisa, nas glaciárias nuvens…

É a língua sana, sábia e preciosa como agulhão;
apontando para o infinito astro Glaciais,
passo à passo como um guião,
ou gládio dos deuses.

Coração convulso do órgão avulso,
nesse ermo a jazer de deus, acende cada coração…execução; ou convulsão, sentir pleno!
Pleno? – Sim, pleno e espiritual ou talvez, o sentir da emoção…
Os erróneos dias; a vontade do viver pleno,
e novamente voltar a ser anjo ou liberdade,
sem grilhões nem temáticas por desenvolver, apenas
deixar a mente fluir. Fluir incessantemente…
abster-me das complicações…e seguir o cosmo até haver infixo de corpo com a alma; ir à infinidade!

Quero rever o éden dos afortunados: alhear-me do pecado e pecar de novo como sinal de puerilidade de um anjo recém-nascido.

Vou gozar as estrelas, percorrer os cometas e adormecer em qualquer nuvem macia, e sonhar…seria bom: com um novo paraíso, igual ao de EVA ou de tantas outras iguais a ela.
E, no retiro sombrio, colocarei holofotes de enormes estrelas, e que as flores não murchem, que as árvores não sequem, nem as folhas caiam. Haver uma só estação, um só clima e uma única vibração. E tudo existir tranquilo, sem carências ou medos, sem raças ou credos, maledicências: tudo provir e ser espírito mas, sem sede e, assim, tudo permanecer.

Friday, July 21, 2006

Um olhar



Na orla, na curva ou no descerrar da noite prendo o olhar inquieto. Vou desfraldando um verso por ensaiar nos sonhos alheios, Antojar premeditado no endereço das meditações ocultas de quantos se me atravessam, no verso do canto ainda por concluir, ou em jeito de poema, na orla das mentes obscenas.

Posso inverter a ordem das palavras, inventar outro ritmo: um cântico fraterno, vibrante, como um hino de esperança. Posso, eu sei… nos inúmeros caminhos onde a humanidade vacilou…

Posso sonhar à qualquer momento mas não desejo esconder esse ensejo aos intrusos no país da minha alma.

No olhar acescente dos afectos retraídos das gentes no recomeço do dia, posso desfraldar em cada um por dentro, a rente inquietação da solidão, fracturada de tanta aversão que, pelo andar de cada um, vão escrevendo no chão com os passos o que a mente imprime e soletra no vazio de suas vidas.

Mas, ao entardecer, geralmente, os olhares migram para lugares vazios, onde cada um se torna infinitamente clandestino.

Sei que posso ser intruso em corpo alheio mas não quero. Quero antes esconder-me desse olhar cinzento das manhãs e repousar ao meio-dia nesse retrato quase completo das madrugadas da vida. Mas um olhar pode dizer tudo, e tudo, nada. Melhor, é descerrar a mágoa e recomeçar… outra vez…, sem péssimas lembranças. Vou soletrar cada passo, provar cada gesto, palavra, olhar, sem profanar as sombras e praguejar dos males. Mas antes, vou largar toda a minha raiva.

Wednesday, July 19, 2006

Sono incauto



Existem incidências de vontades que o futuro não revela., dizes. – Que fazer das sombras matinais onde o corpo repousa?

Através da noite e nas cintilantes estrelas do universo existe um lugar onde, na lua cheia, o amor reencontra a outra face da vida. O outro olhar da esperança, e foi numa dessas noites, na magia dos astros tropecei no teu olhar crédulo, e entrei na essência da tua vigília. Estavas descomposta. Foi o quadro ou a pintura que, como numa inspiração repentina de um pintor, pintei traços que ficou como a mais linda recordação; ao ver-te surgir envolta num véu dos deuses ou de anjos. Foi também na maresia do teu vulto saído das nuvens duma madrugadora manhã que descobri a paz plena. Foi lá que fui redobrar forças sorvendo a fantasia desse olhar nocturno com que me cobriste com o brilho dos erróneos rios do teu corpo.

Vem. Disseste. - Caminha ao meu lado que a noite é longa que eu prolongarei a nossa estadia pois, não sei do amanhã…não temas, vamos pintar um quadro que ficará para a eternidade e, lembraremos sempre este instante que, talvez fique inacabado depois, poderás partir, seguir o teu rumo por entre essa aurora boreal que te envolve como um escudo de protecção contra os males dos terráqueos…mas só depois de eu adormecer. Não quero ver-te partir porque pretendo guardar a mesma imagem de quando chegaste. Assim, ficará na minha lembrança o mesmo olhar com que te vi chegar. – Farei o que me pedes, disse-lhe. - Mas voltarei. Voltarei depois desta ida breve. Temo perder-te, neste universo infindável, poderei não achar-te outra vez pois, te confundirei com brilho dessas estrelas, na maresia desse mar imenso e infinito. Onde irei depois derramar as minhas mágoas senão em ti, contigo? - Vai. Disseste e eu intui – Eu estarei plantada. Repousarei o corpo ao merecido descanso mas estarei sempre contigo ainda que o meu dormitar se prolongue. Minha`lma estará vigilante pois, as estrelas são a minha guarda e protecção, elas me anunciarão o teu regresso. Talvez na paz do sono sonhe e me redescubra. Vai, eu estarei contigo até ao final do tempo sem hora marcada nem dia certo. Aí, tudo se consumará!

Esta noite como todas as outras, serei vadio, e no trilho, nas sombras do pensamento, não se pode outra vez, nem buscar outro olhar, o olhar que se mantém fixo na sombra, e o ruído a cada nuvem branca, no exílio da pena, perder-se-á no frio mar, nos confins das cinzas da noite. Reverei para lá desse teu languescente e preguiçado sono o sussurrar da paz, talvez…. Se o beijo na derradeira despedida se vier a cumprir. Mas, afliges-me…A abóbada azul celestial, tomou-te aí, o sono final. Quem dera, o gozo atrás surripiado ao livre gesto ascender. Esse redimir da paciência tua num sono de ilusões da noite muda, cai o diáfano na escuridão densa e o sono na inércia nocturnal da vida.
Farei da esperança ainda acalentada que o desejo se cumpra ainda que o teu sono se mantenha incauto, quase distante do fulgor desejo, outrora mais firme. Porquê retê-lo? Porque não lutar e manter a chama da esperança? Porquê a acescência desse olhar, sofrível, embora eu sinta que não o seja? Tudo é possível e tangível. Agora adormeces…outro dia virá... Talvez o meu regresso se transforme num encontro de casuais amigos, aí tudo ficará mais claro, quem sabe? …

Monday, July 17, 2006

Dentro de mim



Não sei se por ti,
Se eu, se nós,
Prende-me a emoção
A ti;

Se por dentro, se nas mãos,
Ou se tu dentro de mim.

Friday, July 14, 2006

O Cepo e a Rosa


Manténs-te erecta e firme enquanto te conduzo. Não reages à presença do tacto. Não quando te cinjo... os braços num prisioneiro abraço…. Envolvo o teu corpo afectuoso e brando e nesta composição química reagem o cepo e rosa instintiva e gulosa e, ao sentires o cepo em direcção, crava a rosa, as pétalas se prestam pela magia húmida do talo, o espargir sai apresado, só então do quente frio das axilas, soltas um bramido como o som das quedas de uma cascata… suave e lento como o gemer de um prazer anunciando de surpresas. Na dureza dos montes ao céu aberto, novamente sussurras e o eco nas paredes do quarto, tilintam o som último como o final de um parto. E desces, desces até ao ombro com vagarosa lentidão. Deixas-me insalivado, do fundo o nervoso cepo, emerge de novo, em direcção aos lábios a coberto do brilho das estrelas…são cristais ou salinas, ou açúcar e…vais mordendo o cepo e a língua percorrendo os extremos. O cepo e a rosa se unem num bailado interminável… as figuras penduradas nas paredes são no silêncio compressor, testemunhas do desenrolar da peça, irrepetível onde, o cenário muda à cada minuto e, tudo recomeça depois dos intervalos do riso: na incisão dos olhares, a cumplicidade se vincula no selar das línguas. É aí, meu amor. É aí que tudo é princípio e fim ou talvez recomeço.