Acto milenar

A lua vogava em pleno céu: as crepitações do calor da perda, algures numa estrela premeditada tecem a harmonia vaga de tudo o que fiz e pensei, abrem-se ao que os ressoa…um musical fúnebre. Olhei de perto e vi os olhos, a face desse alguém que era eu, que me habitáva; o alarme dessa viva realidade que era eu e o não era; desse ser vivo que até então vivera comigo em absoluta indiferença.
Uma voz retardatária numa manhã clandestina, ecoa no quarto onde antes adormeceras… pela última vez; - a inquietante separação de vivos e mortos.
Sobre a lua, essa, com portas entreabertas, vinha um eco sonambulesco da luz difusa. E eu, sentei-me junto a esta porta entreaberta, na sala em em forma ou espécie de pátio semiaberto. Um denso nevoeiro vagueava perfumando: um ar a velório, vazia de silêncio mas cheia de vultos de quantos ali viveram. Uma memória de origem, adormecida há muito que despertara em mim o sinal obscuro da tua ida milenar. Tento redescobrir a face preambular, na suposição de achar um retrato imaginário e invulgar, o indício de um rumor de vida pela sua descrição, pela voz gravada em mim das nossas conversas: a verdade perfeita no cenário real das nossas tranquilas e reveladas atitudes como se ambos fossemos um só espírito, um só e único ser. Mas pensar tudo isso é a completa banalidade de uma realidade que já não é senão uma figura presente e distante, silenciosa e inacessível, constrangedora na dor, intranquilamente intransigente, do ser que já não é senão como uma estátua, a de um corpo em repouso absoluto. Corroeu-me a… talvez a busca de uma outra lembrança de nós, juntos, à outras esferas da nossa intimidade e, eis que trespassa agora pela fresta da janela do meu visionário tempo lunar o fluido sensorial de uma presença invisível mas conhecida dentro de mim. Afinal, não partiras já para a última morada, ainda aqui estás. Estás então para dizer ao íntimo que irás permanecer viva dentro de mim… que será apenas uma mudança local, cuja morada eu sempre conhecera. Pode parecer absurdo tudo isto, mas sinto nas vísceras a sua presença fulgurante e inverosímil. Complexa…estrada a mundice da morte: a prodigiosa transição; - corpo e alma; o incontornável retorno à vida: - um súbito silêncio milenar que culmina com o deitar a terra para dentro da cova, como último sinal do adeus sem retorno, que se encerra cobrindo o universal espaço da largura de cinco passos, com flores mutiladas e ajustadas, adornadas, formando um só ramo, como tu aí…mas contrastante pelo multicolor ajustado e ajeitado dos ramos, como sinal perpetuáveis e necessariamente único…será também esta sepultura para mim um lugar de romarias. Não quiseste o vestido preto, escolheste o vermelho, porém, o preto também é alegria, mas tu lá soubeste das tuas razões…e, assim permanecerás na memória dos vivos. Dos vivos sim, porque amortalhado, apenas eu, infinitamente e contrariamente só…embora aparentemente vivo e em consciência saber que também tenho de morrer, ou melhor, parte de mim morreu contigo. Não a pior ou menos boa, mas a melhor, a das nossas comunhões, a que me mantinha vivo e consolável e afortunado. Como é difícil miracular tal sentido daquele que não ama, nem nunca o amor pleno haverá vivido?
Esta noite será perpassável mais uma vez porque será a que menos desejaria nunca ter de suportar.
Quantas coisas aprendi contigo, sei. Estão aí como sinal de que estou vivo, mas não as que mais preciso agora. Quando delas precisei sabia-as, contigo, Agora, justo agora que me habito, de nada me servem porque..., deixaram de fazer sentido. Sentido, só enquanto exististe e tudo foi divino, embora tristemente milenar. Agora, são os ecos alarmantes que soqueam abrutalhadamente como estrondos de vulcões cá dentro nas minhas veias, no meu cérebro atabalhoado, cheio de estridências...a compulsividade provinda como se de uma mísera raiva alarmante e repercutiva tomasse de um só pulso as minhas entranhas e, o furor de uma plenitude abusiva e arrogante quizesse fazer do que me habita ainda dos teus restos que ainda retenho saudosamente, de seu direito.
Uma voz retardatária numa manhã clandestina, ecoa no quarto onde antes adormeceras… pela última vez; - a inquietante separação de vivos e mortos.
Sobre a lua, essa, com portas entreabertas, vinha um eco sonambulesco da luz difusa. E eu, sentei-me junto a esta porta entreaberta, na sala em em forma ou espécie de pátio semiaberto. Um denso nevoeiro vagueava perfumando: um ar a velório, vazia de silêncio mas cheia de vultos de quantos ali viveram. Uma memória de origem, adormecida há muito que despertara em mim o sinal obscuro da tua ida milenar. Tento redescobrir a face preambular, na suposição de achar um retrato imaginário e invulgar, o indício de um rumor de vida pela sua descrição, pela voz gravada em mim das nossas conversas: a verdade perfeita no cenário real das nossas tranquilas e reveladas atitudes como se ambos fossemos um só espírito, um só e único ser. Mas pensar tudo isso é a completa banalidade de uma realidade que já não é senão uma figura presente e distante, silenciosa e inacessível, constrangedora na dor, intranquilamente intransigente, do ser que já não é senão como uma estátua, a de um corpo em repouso absoluto. Corroeu-me a… talvez a busca de uma outra lembrança de nós, juntos, à outras esferas da nossa intimidade e, eis que trespassa agora pela fresta da janela do meu visionário tempo lunar o fluido sensorial de uma presença invisível mas conhecida dentro de mim. Afinal, não partiras já para a última morada, ainda aqui estás. Estás então para dizer ao íntimo que irás permanecer viva dentro de mim… que será apenas uma mudança local, cuja morada eu sempre conhecera. Pode parecer absurdo tudo isto, mas sinto nas vísceras a sua presença fulgurante e inverosímil. Complexa…estrada a mundice da morte: a prodigiosa transição; - corpo e alma; o incontornável retorno à vida: - um súbito silêncio milenar que culmina com o deitar a terra para dentro da cova, como último sinal do adeus sem retorno, que se encerra cobrindo o universal espaço da largura de cinco passos, com flores mutiladas e ajustadas, adornadas, formando um só ramo, como tu aí…mas contrastante pelo multicolor ajustado e ajeitado dos ramos, como sinal perpetuáveis e necessariamente único…será também esta sepultura para mim um lugar de romarias. Não quiseste o vestido preto, escolheste o vermelho, porém, o preto também é alegria, mas tu lá soubeste das tuas razões…e, assim permanecerás na memória dos vivos. Dos vivos sim, porque amortalhado, apenas eu, infinitamente e contrariamente só…embora aparentemente vivo e em consciência saber que também tenho de morrer, ou melhor, parte de mim morreu contigo. Não a pior ou menos boa, mas a melhor, a das nossas comunhões, a que me mantinha vivo e consolável e afortunado. Como é difícil miracular tal sentido daquele que não ama, nem nunca o amor pleno haverá vivido?
Esta noite será perpassável mais uma vez porque será a que menos desejaria nunca ter de suportar.
Quantas coisas aprendi contigo, sei. Estão aí como sinal de que estou vivo, mas não as que mais preciso agora. Quando delas precisei sabia-as, contigo, Agora, justo agora que me habito, de nada me servem porque..., deixaram de fazer sentido. Sentido, só enquanto exististe e tudo foi divino, embora tristemente milenar. Agora, são os ecos alarmantes que soqueam abrutalhadamente como estrondos de vulcões cá dentro nas minhas veias, no meu cérebro atabalhoado, cheio de estridências...a compulsividade provinda como se de uma mísera raiva alarmante e repercutiva tomasse de um só pulso as minhas entranhas e, o furor de uma plenitude abusiva e arrogante quizesse fazer do que me habita ainda dos teus restos que ainda retenho saudosamente, de seu direito.
A lua voga, o mar, esse cristaliza-se em torno e eu ainda sonho. Sonho com emoção do forte sentir aniquilador, esse ritual milenar, a morte...
